Não posso dizer que fiquei espantado com os últimos jogos da Seleção Brasileira, contra Inglaterra, Itália e Rússia. Acredito que boa parte da "revolta" experimentada por parte da torcida seja daqueles que ainda pensam que estamos em 1970 e que o mundo ainda não sabe jogar bola. Talvez seja a hora de mudar os conceitos.
Antes de qualquer coisa, é evidente que nosso time não é uma "baba" e que temos plenas condições de vencer a maioria dos adversários que se apresentarem diante de nós em um campo de futebol. Podemos não entrar com o favoritismo de décadas passadas (em alguns casos, sequer seremos favoritos!), mas na hora que começa a peleja, podemos ganhar. Temos qualidade individual para isso.
Isso não quer dizer que a culpa seja do Felipão (ou tenha sido do Mano), que de fato não conseguiram fazer a equipe corresponder às expectativas. Não acredito que em algum momento o Brasil tenha escalado seu escrete ideal - na minha opinião - mas acho que as críticas precisam ser comedidas. É preciso entender o material que temos em mão e a difícil maneira de fazer as peças do quebra-cabeças encaixar.
Não acha? Pois eu proponho um exercício interessante. Tente lembrar dos últimos jogadores de destaque que o Brasil formou e quando eles deixaram de ser "promessas" para se tornarem "realidade". Via de regra, nossas revelações tem problemas para se adaptar a campeonatos mais competitivos e apenas depois de algum tempo é que alguns "vingam" ou mostram alguma melhora, mesmo que não triunfem no exterior. Por que?
Vale pensar nisso. Em geral, revelamos jogadores com as mesmas características, ano após ano: volantes com grande poder de marcação, mas problemas graves no passe; meias com preferência em jogar pelas pontas e que buscam o chute de longe; atacantes ágeis e habilidosos, mas com deficiência na finalização. Poucas são as promessas que mostram algo diferente do "pacote físico" a que estamos nos acostumando.
Claro que sempre haverá exceções e é evidente também que um jovem que acaba de ser promovido da base ainda tem muito o que evoluir. Porém, é sintomático que o Brasil não forme há muito tempo atletas com fundamentos refinados que não o drible e com alguma consciência tática e coletiva. Nos tornamos uma linha de produção de jogadores rápidos/ fortes, mas que não conseguem desenvolver o jogo.
Por isso não chega a espantar, ao menos a mim, a dificuldade que os treinadores tem de encontrar peças para preencher um esquema. Todos os times do país tem um atacante de velocidade, um volante mordedor, um ala driblador, mas poucos podem contar com um meia passador, um zagueiro técnico e um centroavante mais completo.
O quadro é evidente e só não vê quem quer: nossa base forma muito mal.
Não acho que seja questão de abolir um esquemas táticos vistos como "limitantes" (muitas vezes o 3-5-2 é visto como um vilão - injustamente) ou abrir mão do trabalho físico com garotos mais novos (o futebol é esporte de contato e é importante ser "atlético"), mas é preciso mudar o trabalho nas categorias inferiores do Brasil. Tão importante quando cuidar dos fundamentos é ajudar o atleta a se desenvolver mentalmente, reforçar a parte coletiva e tática do esporte. Não é aceitável que um jogador - mesmo jovem - chegue tão "verde" ao grupo dos profissionais.
Muito se fala a respeito da evolução que o futebol passou nos últimos dez, quinze anos. A dinâmica do jogo é outra, a exigência é diferente, não apenas na resistência, força ou velocidade. Ser competente nos fundamentos e, mais ainda, saber como e quando utilizá-los é o grande diferencial do esporte hoje. Vemos Cristiano Ronaldo e Messi sobrarem no cenário esportivo justamente por serem jogadores repletos de artifícios, que entendem o jogo e sabem usar suas qualidades a seu favor - além, é claro, de serem dotados de um talento incrível.
Nossos jogadores são talentosos, mas estão aquém do desejável em diversos aspectos para serem as futuras estrelas da Seleção. Isso explica porque hoje o Brasil não é a Espanha ou a Alemanha, e mostra uma parte do caminho das pedras para voltarmos a ser um país dominante no futebol.
quarta-feira, 27 de março de 2013
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