terça-feira, 2 de abril de 2013

Ter ou não ter, eis a questão


Com a veiculação da notícia de que o Botafogo estaria cogitando a devolução do Engenhão ao seu legítimo dono, o Poder Público, começou o debate sobre se a atitude é, de fato, a melhor para o clube. Tendo como alternativa mandar seus jogos no Caio Martins, em Niterói, parte da torcida defende a entrega do Estádio João Havelange para a prefeitura enquanto outra parcela acredita que, sanados os problemas que levaram ao fechamento da arena, o Botafogo deveria retornar ao Engenhão.

Claro que uma decisão desse porte não pode jamais ser tomada sem que se avalie todas as variáveis da equação. A perda de receitas com bilheteria e o prejuízo esportivo de não ter uma "casa" para jogar são os golpes mais sentidos em um primeiro momento. Porém, interditar o Engenhão significa muito mais do que isso. Existem vários acordos acertados para o uso dos camarotes, placas de publicidade, ações de marketing, enfim... Boa parte do orçamento do Botafogo foi e ainda pode ser diretamente afetado por conta dessa situação. É difícil imaginar que no futuro, mesmo com toda a questão estrutural resolvida, a imagem do estádio não se mantenha arranhada por um bom tempo e isso deixe possíveis investidores e parceiros com um "pé atrás".

No fundo, há muitos fatores que pesam contra o Engenhão. Enumerei alguns que me saltaram a memória, fazendo breves comentários:

1) Desde sua inauguração, o Estádio João Havelange conviveu com diversos problemas. O primeiro deles foi o gramado, que precisou ser inteiramente trocado pelo Botafogo assim que garantiu sua concessão. Além dessa belíssima obra, ao longo dos seis anos em que esteve ativo, o Engenhão apresentou falhas elétricas, hidráulicas, foi alvo de reformas em seu acabamento, sendo preciso até comprar um novo gerador para o estádio.

2) Os problemas de infra-estrutura dos arredores do Engenhão são um dos fatores que afastou o torcedor em geral do estádio. As médias de público de todos os clubes do Rio de Janeiro caem sensivelmente quando estes mandam seus jogos na "arena do Pan". Apesar de haver uma estação de metrô próxima, ela não comporta o fluxo de torcedores que o estádio recebe em partidas mais movimentadas. A iluminação deficiente contribuiu para o sentimento de insegurança dos torcedores e as intrincadas vias de acesso deixam a desejar para quem vai de carro ou ônibus para os eventos no estádio.

3) Apenas de manutenção mensal, o Botafogo desembolsa aproximadamente 450 mil reais. Além desse montante, há ainda o pagamento pela concessão recebida da Prefeitura. Ao final dos 20 anos de acordo, o clube terá desembolsado algo em torno de exorbitantes 100 milhões de reais. Não haveria um destino melhor para todo esse dinheiro? Quem sabe investir - ao lado de parceiros, claro - em uma arena particular não seria mais interessante a longo prazo?

4) Mais de uma vez o departamento de marketing do Botafogo reclamou das várias limitações impostas por contrato para a exploração plena do potencial mercadológico do Engenhão. Por mais compreensível que isso seja, dado que é - de fato - um estádio cedido pelo Poder Público, é mais um fator que trava o crescimento que o clube poderia ter caso fosse dono de seu próprio estádio, por mais simples e acanhado que fosse.

5) Estruturalmente, o Engenhão não atende aos interesses e necessidades do Botafogo. É uma arena muito grande para o fluxo de torcedores que os clubes brasileiros, em geral, recebem. Isso aumenta desnecessariamente os custos de operação. Ele também não tem as características de "alçapão" que a maioria das equipes prefere para mandar seus jogos. Além disso, há a já falada localização questionável. Somados, esses pontos se tornam um aspecto relevante na avaliação do sucesso/fracasso do Engenhão como casa do Botafogo.

Mesmo tudo isso em vista, é preciso colocar os pés no chão e entender que erguer um estádio no Rio de Janeiro é um sonho distante. Com valores exorbitantes cobrados pelo m² na cidade, especialmente em áreas mais nobres, há quem diga que isso só seria possível através de acordos com o Poder Público, como fez o Corinthians, por exemplo. Por conta de todo o embróglio envolvendo o Engenhão, acredito que essa não seja a melhor opção. É impossível achar que a empreitada de construir sua própria casa seja um trabalho fácil para o Botafogo, mas ainda assim é preciso avaliar essa alternativa.

O profissionalismo pleno de um clube de futebol passa por sua independência e, no momento, o que se vê é um Botafogo refém de um problema ainda mal-explicado. O ex-Prefeito César Maia, mandatário na época da construção do Estádio João Havelange, garante que sua interdição não passa de uma manobra para valorizar a concessão do novo Maracanã. De fato, a hora é conveniente, mas a verdade é que isso não altera os fatos para o bolso do Botafogo. A carruagem já virou abóbora e talvez seja a hora do Alvinegro buscar o sucesso sem contar com a ajuda de uma fada-madrinha qualquer...

quarta-feira, 27 de março de 2013

Por que o Brasil não é a Espanha?

Não posso dizer que fiquei espantado com os últimos jogos da Seleção Brasileira, contra Inglaterra, Itália e Rússia. Acredito que boa parte da "revolta" experimentada por parte da torcida seja daqueles que ainda pensam que estamos em 1970 e que o mundo ainda não sabe jogar bola. Talvez seja a hora de mudar os conceitos.

Antes de qualquer coisa, é evidente que nosso time não é uma "baba" e que temos plenas condições de vencer a maioria dos adversários que se apresentarem diante de nós em um campo de futebol. Podemos não entrar com o favoritismo de décadas passadas (em alguns casos, sequer seremos favoritos!), mas na hora que começa a peleja, podemos ganhar. Temos qualidade individual para isso.

Isso não quer dizer que a culpa seja do Felipão (ou tenha sido do Mano), que de fato não conseguiram fazer a equipe corresponder às expectativas. Não acredito que em algum momento o Brasil tenha escalado seu escrete ideal - na minha opinião - mas acho que as críticas precisam ser comedidas. É preciso entender o material que temos em mão e a difícil maneira de fazer as peças do quebra-cabeças encaixar.

Não acha? Pois eu proponho um exercício interessante. Tente lembrar dos últimos jogadores de destaque que o Brasil formou e quando eles deixaram de ser "promessas" para se tornarem "realidade". Via de regra, nossas revelações tem problemas para se adaptar a campeonatos mais competitivos e apenas depois de algum tempo é que alguns "vingam" ou mostram alguma melhora, mesmo que não triunfem no exterior. Por que?

Vale pensar nisso. Em geral, revelamos jogadores com as mesmas características, ano após ano: volantes com grande poder de marcação, mas problemas graves no passe; meias com preferência em jogar pelas pontas e que buscam o chute de longe; atacantes ágeis e habilidosos, mas com deficiência na finalização.  Poucas são as promessas que mostram algo diferente do "pacote físico" a que estamos nos acostumando.

Claro que sempre haverá exceções e é evidente também que um jovem que acaba de ser promovido da base ainda tem muito o que evoluir. Porém, é sintomático que o Brasil não forme há muito tempo atletas com fundamentos refinados que não o drible e com alguma consciência tática e coletiva. Nos tornamos uma linha de produção de jogadores rápidos/ fortes, mas que não conseguem desenvolver o jogo.

Por isso não chega a espantar, ao menos a mim, a dificuldade que os treinadores tem de encontrar peças para preencher um esquema. Todos os times do país tem um atacante de velocidade, um volante mordedor, um ala driblador, mas poucos podem contar com um meia passador, um zagueiro técnico e um centroavante mais completo.

O quadro é evidente e só não vê quem quer: nossa base forma muito mal.

Não acho que seja questão de abolir um esquemas táticos vistos como "limitantes" (muitas vezes o 3-5-2 é visto como um vilão - injustamente) ou abrir mão do trabalho físico com garotos mais novos (o futebol é esporte de contato e é importante ser "atlético"), mas é preciso mudar o trabalho nas categorias inferiores do Brasil. Tão importante quando cuidar dos fundamentos é ajudar o atleta a se desenvolver mentalmente, reforçar a parte coletiva e tática do esporte. Não é aceitável que um jogador - mesmo jovem - chegue tão "verde" ao grupo dos profissionais.

Muito se fala a respeito da evolução que o futebol passou nos últimos dez, quinze anos. A dinâmica do jogo é outra, a exigência é diferente, não apenas na resistência, força ou velocidade. Ser competente nos fundamentos e, mais ainda, saber como e quando utilizá-los é o grande diferencial do esporte hoje. Vemos Cristiano Ronaldo e Messi sobrarem no cenário esportivo justamente por serem jogadores repletos de artifícios, que entendem o jogo e sabem usar suas qualidades a seu favor - além, é claro, de serem dotados de um talento incrível.

Nossos jogadores são talentosos, mas estão aquém do desejável em diversos aspectos para serem as futuras estrelas da Seleção. Isso explica porque hoje o Brasil não é a Espanha ou a Alemanha, e mostra uma parte do caminho das pedras para voltarmos a ser um país dominante no futebol.