No futebol, poucas vezes uma mudança de rendimento de um atleta ou time não pode ser explicada. Não existem milagres e maldições no velho esporte bretão. Claro que acontece de um jogador bom fazer uma partida ruim, ou o contrário, mas poucas vezes isso se torna corriqueiro sem que haja um motivo completamente racional que explique - ainda que parcialmente - sua atuação. A partir daí busquei traçar um paralelo sobre o assunto do momento (na verdade, de vários momentos passados e que voltou a tona agora) que é o nível de exibição de Messi na seleção argentina.
É simplismo dizer que no Barcelona é fácil jogar com Xavi, Iniesta, Pedro e Villa ao lado, até porque isso cria imediatamente o argumento oposto, de que é difícil jogar com Banega, Lavezzi e outros jogadores que atuam na Albiceleste. São atletas razoáveis, alguns até bons, mas não podem ser comparados com os da seleção espanhola, indubitavelmente a melhor do mundo. Acredito que a questão não é QUEM está ao lado e sim COMO está ao lado.
Um fato indiscutível é que o Barça sabe tirar o máximo de seus jogadores. É um time montado para espremer o talento dos atletas até a última gota. Impõem seu estilo de jogo, treinado a exaustão diariamente no clube. Quando Xavi e companhia chegam para atuar na seleção, encontram um cenário muito mais parecido com o que vivem no Barcelona do que Messi, e todos eles dependem do coletivo para brilharem. Xavi só pode dar passes decisivos para atacantes que se movimentem e encontrem espaços, Daniel Alves só pode atacar com a intensidade que o faz se houver zagueiros e volantes postados para ocupar os espaços que ele deixa, e da mesma forma, Messi só rende aquele futebol diante de circunstâncias parecidas com a que o clube oferece a ele. Isso definitivamente não é o caso da Argentina.
Culpa do treinador Batista ou não (o que é um longo assunto para outro post), na seleção o esquema não ajuda Messi. O camisa 10 é deslocado para outra posição no campo, se afastando da área onde define as jogadas, os atacantes ocupam espaços com menos mobilidade que os companheiros de Barça, os laterais não fazem ultrapassagens, os volantes não se aproximam para jogar... No fim das contas, o jogador que supostamente deveria fazer o time funcionar se encontra perdido no meio do campo sem ninguém para auxiliá-lo na função. Some-se a isso a forte marcação que o melhor do mundo sempre encontrará e está explicado o sub-rendimento de Messi.
Por que ontem ele jogou melhor? A entrada de Di Maria no meio deu mais velocidade ao time e ofereceu mais opções para a equipe. Um jogador que se movimentou a partida inteira e abriu espaços para os atacantes, ocupando a marcação adversária e se aproximando de Messi para jogar. Agüero é um atacante mais leve e inteligente que Lavezzi, além de ser melhor em quase todos os fundamentos. O volante Gago se apresentou para o jogo, ao contrário de Cambiasso que nas outras partidas foi excessivamente cauteloso na marcação e se omitiu de jogar. No fim, essas diferenças ajudaram Messi a jogar melhor (além, é claro, da fragilidade da Costa Rica sub23).
De maneira nenhuma as falhas táticas e condição técnica dos companheiros exime "La Pulga" da culpa de ter ido mal nas duas primeiras partidas. Messi ficou devendo e precisa mostrar que sabe se adaptar a situações adversas. Por outro lado, cabe ao técnico da seleção entender as dificuldades que o 10 vive e facilitar sua vida. O principal atleta de um time não pode ser sacrificado por conta de preferências táticas de um treinador. O gênio precisa se impor dentro de campo e fora dele também, em conversas com seu comandante, sob o risco de se queimar com sua seleção caso Batista não entenda as necessidades de seu jogador e o faça jogar.
terça-feira, 12 de julho de 2011
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Sobre malandros e bobos
Ao contrário do que o título sugere a primeira vista, não falarei sobre as "espertezas" do futebol e seus jogadores que cavam pênaltis ou praticam a boa e velha catimba. Comentarei sim sobre uma outra gíria do mundo dos boleiros, focando em um velho chavão esportivo: afinal, existem ou não existem mais bobos no futebol?
Discussão velha, verdade, mas pertinente depois de conferir uma rodada da Copa América onde as três seleções favoritas ao título tropeçaram contra adversários bem inferiores. Para quem não conferiu, os confrontos entre Argentina x Bolívia, Brasil x Venezuela e Uruguai x Peru acabaram em empates que deixaram uma péssima impressão para a torcida e os amantes de futebol em geral. Afinal de contas, será que Argentina, Brasil e Uruguai são equipes supervalorizadas e que hoje não têm bons times ou será que essa dificuldade em vencer partidas teoricamente tranquilas tem outro motivo?
O que se viu entre comentaristas e colunistas em geral foi uma espécie de consenso que, ao menos se tratando de Brasil e Mano Menezes, ainda é cedo para cobrar um futebol vistoso. Concordo em parte, já que de fato não houve tempo o suficiente para azeitar completamente uma equipe que raramente tem a oportunidade de treinar junto. Isso não muda o fato de que o time deixou a desejar. Ao falarem de Argentina e Uruguai, o argumento se repetiu, embora com tons mais críticos, colocando em questão a qualidade de setores do time ou determinados jogadores.
Surpreendentemente (ou não), poucos foram aqueles que apontaram uma melhoria nos adversários dos três gigantes da América do Sul. Não foi cogitada a hipótese de Bolívia, Venezuela e Peru terem se desenvolvido tanto na técnica quanto (e principalmente) na parte tática. Na minha visão isso é erro. Ficou evidente que as três equipes estão sim melhores do que estavam no último ciclo de Mundial.
A Bolívia ainda é, na minha opinião, a seleção mais deficiente do continente. Carece de jogadores sequer razoáveis e por isso adota uma postura submissa na maioria de seus jogos. Mas aprendeu a atuar assim. Achou um gol contra a Argentina que forçou o adversário a ir para cima, e só tomou o gol porque foi extremamente pressionada. Se não tivesse marcado - e o gol foi muito sem querer - provavelmente teria segurado o 0x0.
A Venezuela é outro time que, embora mais talentoso tecnicamente (e isso está longe de querer dizer que é um grupo bom), soube fechar muito bem o meio e prender o Brasil. Não se trata de se defender na entrada da área tomando sufoco 90 minutos; dessa vez foi uma marcação controlada, bem postada e segura. Poucas vezes o time tomou algum susto e as poucas chances da Seleção Brasileira surgiram em lampejos de seus melhores jogadores.
Contra o Uruguai, a seleção peruana foi a que mais me surpreendeu. Quis jogar contra o adversário, e jogou. Depende muito de seus dois ou três jogadores mais capacitados, só que conseguiu fazer o básico com o resto deles. Claro que essa ousadia cobrou seu preço e os uruguaios conseguiram buscar o empate. Ainda assim o Peru teve chance de vencer o jogo enquanto Forlán e cia buscavam a vitória, se expondo totalmente aos contra-ataques. Faltou sorte (e claro, um pouco de qualidade) aos peruanos...
O resumo dessa ópera é que talvez seja a hora de começarmos a avaliar não apenas nossos problemas e falhas e passaramos a reconhecer os méritos das equipes que enfrentamos. No Brasil ainda vende-se a idéia de que nossa Seleção sempre é a melhor, que somos naturalmente dotados de um talento ímpar e que vencer depende apenas de nós. Isso é uma mentira. Talvez na hora que essa mentalidade mudar, deixemos de achar que somos os malandros enquanto alguns "bobos" riem de nós.
Discussão velha, verdade, mas pertinente depois de conferir uma rodada da Copa América onde as três seleções favoritas ao título tropeçaram contra adversários bem inferiores. Para quem não conferiu, os confrontos entre Argentina x Bolívia, Brasil x Venezuela e Uruguai x Peru acabaram em empates que deixaram uma péssima impressão para a torcida e os amantes de futebol em geral. Afinal de contas, será que Argentina, Brasil e Uruguai são equipes supervalorizadas e que hoje não têm bons times ou será que essa dificuldade em vencer partidas teoricamente tranquilas tem outro motivo?
O que se viu entre comentaristas e colunistas em geral foi uma espécie de consenso que, ao menos se tratando de Brasil e Mano Menezes, ainda é cedo para cobrar um futebol vistoso. Concordo em parte, já que de fato não houve tempo o suficiente para azeitar completamente uma equipe que raramente tem a oportunidade de treinar junto. Isso não muda o fato de que o time deixou a desejar. Ao falarem de Argentina e Uruguai, o argumento se repetiu, embora com tons mais críticos, colocando em questão a qualidade de setores do time ou determinados jogadores.
Surpreendentemente (ou não), poucos foram aqueles que apontaram uma melhoria nos adversários dos três gigantes da América do Sul. Não foi cogitada a hipótese de Bolívia, Venezuela e Peru terem se desenvolvido tanto na técnica quanto (e principalmente) na parte tática. Na minha visão isso é erro. Ficou evidente que as três equipes estão sim melhores do que estavam no último ciclo de Mundial.
A Bolívia ainda é, na minha opinião, a seleção mais deficiente do continente. Carece de jogadores sequer razoáveis e por isso adota uma postura submissa na maioria de seus jogos. Mas aprendeu a atuar assim. Achou um gol contra a Argentina que forçou o adversário a ir para cima, e só tomou o gol porque foi extremamente pressionada. Se não tivesse marcado - e o gol foi muito sem querer - provavelmente teria segurado o 0x0.
A Venezuela é outro time que, embora mais talentoso tecnicamente (e isso está longe de querer dizer que é um grupo bom), soube fechar muito bem o meio e prender o Brasil. Não se trata de se defender na entrada da área tomando sufoco 90 minutos; dessa vez foi uma marcação controlada, bem postada e segura. Poucas vezes o time tomou algum susto e as poucas chances da Seleção Brasileira surgiram em lampejos de seus melhores jogadores.
Contra o Uruguai, a seleção peruana foi a que mais me surpreendeu. Quis jogar contra o adversário, e jogou. Depende muito de seus dois ou três jogadores mais capacitados, só que conseguiu fazer o básico com o resto deles. Claro que essa ousadia cobrou seu preço e os uruguaios conseguiram buscar o empate. Ainda assim o Peru teve chance de vencer o jogo enquanto Forlán e cia buscavam a vitória, se expondo totalmente aos contra-ataques. Faltou sorte (e claro, um pouco de qualidade) aos peruanos...
O resumo dessa ópera é que talvez seja a hora de começarmos a avaliar não apenas nossos problemas e falhas e passaramos a reconhecer os méritos das equipes que enfrentamos. No Brasil ainda vende-se a idéia de que nossa Seleção sempre é a melhor, que somos naturalmente dotados de um talento ímpar e que vencer depende apenas de nós. Isso é uma mentira. Talvez na hora que essa mentalidade mudar, deixemos de achar que somos os malandros enquanto alguns "bobos" riem de nós.
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