terça-feira, 14 de abril de 2009

20 anos da Tragédia de Hillsborough

Poucos episódios na história do futebol causaram uma mudança tão drástica quanto a que foi impulsionada pelo Desastre de Hillsborough. Infelizmente foi preciso que ocorresse um drama dessa magnitude para que o tratamento dos torcedores na Inglaterra e no mundo começasse a mudar.

No dia 15 de abril de 1989, no estádio do Sheffield Wednesday (que atualmente disputa a segunda divisão do Campeonato Inglês) 96 torcedores do Liverpool morreram esmagados ou pisoteados depois de uma grande confusão na entrada do estádio de Hillsborough. O jogo entre Nottingham Forest e Liverpool, válido pelas semifinais da FA Cup, durou apenas seis minutos antes de ser interrompido por causa da confusão.

Uma soma de fatores desenhou o quadro final do desastre: o primeiro deles e mais grave era a presença de altas grades que dividiam as arquibancadas e separavam os torcedores do gramado; em segundo lugar, um problema na liberação dos torcedores enquanto estes tentavam entrar no recinto, causando empurra-empurra e uma superlotação, que culminou com as mortes. O estádio de Hillsborough já tinha um histórico de problemas, com outros episódios parecidos e por razões semelhantes, mas nunca com mortes.

Muitos torcedores ficaram nos arredores do estádio mesmo sem possuírem ingressos. A grande concentração de pessoas que poderiam entrar acabou se misturando com os que tentavam assistir ao jogo ilegalmente, e formou-se um grande congestionamento humano perto das catracas. Os que não tinham ingressos não podiam sair, e os que tinham, não conseguiam entrar. Assim começou a confusão ainda do lado de fora de Hillsborough. Com medo de haver feridos ou mortos no meio desse caos, a polícia liberou uma passagem sem bloqueios, que seria a saída, e todos os torcedores começaram a entrar, com ou sem ingresso.

O fluxo de gente que saía na parte de trás da arquibancada começou a empurrar as pessoas que já estavam próximas a grade, e cada vez mais ia acumulando-se torcedores empurrando e sendo empurrados dentro do “canteiro” central de Hillsborough. Muitos morreram por asfixia, imprensados no meio da multidão. Como o jogo já havia começado, poucos perceberam a gravidade da situação, e somente quando começou uma invasão de campo é que o estádio de fato acordou para o acontecimento. Buscando ar, vários torcedores escalaram as grades, saltaram para o campo, e começaram a ajudar outras a saírem, tentando derrubar esse mesmo gradeado. Por fim ele cedeu, caindo sobre essas pessoas junto com outros tantos torcedores, matando alguns e ferindo outros.

Com seis minutos de jogo corridos, a partida foi interrompida. A polícia invadiu o campo, tentando organizar a multidão, mas sem sucesso. Houve também um erro das autoridades, ao proibirem a entrada de 43 ambulâncias no gramado. A única que teve permissão para chegar ao local da tragédia foi obrigada a ir embora sem atender ninguém, já que o número de feridos era muito grande. Os torcedores que estavam em condições quebraram placas de propaganda e improvisaram macas para ajudar quem estava em pior estado, além de prestar os primeiros-socorros.

94 pessoas morreram no local, de causas diversas. Outros 766 torcedores ficaram feridos, com mais 300 sendo levados ao hospital para exames. Quatro dias depois, um menino de 14 anos morreu no hospital, em decorrência dos ferimentos. Um outro torcedor veio a falecer em 1993, depois de ficar em coma por quase quatro anos. Esses foram os números finais da Tragédia de Hillsborough.

Foi lançado um inquérito para apurar as causas do desastre. O chamado “Inquérito de Taylor”, por conta de Peter Murray Taylor, encarregado da investigação. A postura da polícia e o design do estádio foram considerados determinantes, e por isso muito foi revisto no sentido de manter a ordem e criar segurança dentro dos campos de jogo. A partir de então foi proibida a instalação de grades ou muros nos estádios para separar a torcida do campo e a implantação dos “Stewards”, supervisores que são vistos hoje na beira do gramado e, além de controlarem o público, podem instruí-los em casos especiais.

O drama inglês não passou despercebido por outros clubes da Europa. Em solidariedade, muitos prestaram homenagens ao Liverpool e seus torcedores. A que merece destaque aconteceu no jogo entre Milan e Real Madrid pela Copa da UEFA. Não houve um minuto de silêncio antes do jogo. Só aos seis minutos de partida o juiz interrompeu o jogo para prestar a homenagem. Durante esse tempo, a torcida do Milan começou a entoar o cântico símbolo dos Reds, “You’ll Never Walk Alone”.

Ainda há marcas do desastre dentro do próprio Liverpool. O volante e estrela maior do time, Steven Gerrard, perdeu seu primo no fatídico 15 de abril de 1989 e outros jogadores e ex-jogadores do clube foram atingidos, direta ou indiretamente. Em homenagem aos mortos da Tragédia de Hillsborough, memoriais foram erguidos, mas nenhum deles mais importante como o que fica ao lado do próprio estádio onde tudo ocorreu, onde pode-se ler:

Em memória aos 96 homens, mulheres e crianças que morreram tragicamente, e aos inúmeros que tiveram suas vidas mudadas para sempre.
Semifinal da FA-Cup, Liverpool x Nottingham Forest
15 de Abril de 1989
“You’ll never walk alone”


De fato, eles não estão sozinhos, e serão sempre lembrados pela nação de torcedores do Liverpool como ocorre hoje, 20 anos depois de tudo.

Um comentário:

Unknown disse...

“You’ll never walk alone”